Maturidade digital: o que é, que dimensões avalia e como a sua empresa se pode situar
Maturidade digital e transformação digital não são sinónimos. A transformação é o caminho, o processo de mudança. A maturidade é o ponto onde a empresa está nesse caminho: o quão bem integrada, avançada e eficiente a tecnologia está nos seus processos, na sua cultura e na sua estratégia. Portugal tem hoje um enquadramento oficial para medir isto, e vale a pena conhecê-lo antes de decidir onde investir a seguir.
É fácil confundir os dois conceitos, porque andam sempre juntos nas conversas sobre digitalização. Mas são coisas diferentes. Transformação digital é o esforço, o projeto, a mudança de um estado para outro. Maturidade digital é a fotografia: mede o grau de preparação e a capacidade real que uma organização tem, hoje, para usar a tecnologia a favor do negócio.
Esta distinção importa porque muda a pergunta que a gestão deveria estar a fazer. Não é "estamos a transformar-nos digitalmente?", isso quase toda a gente responde que sim, há sempre um projeto em curso. A pergunta certa é "em que ponto de maturidade estamos, e o que falta para o próximo nível?". E, em Portugal, essa pergunta já tem uma resposta com critérios formais, não é só uma questão de perceção interna.
No âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, Portugal criou os Selos de Maturidade Digital, um sistema de certificação aberto a qualquer organização, pública ou privada, e desenvolvido em parceria com o Instituto Português de Acreditação e o Instituto Português da Qualidade, as entidades certificadoras e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, com o acompanhamento da Agência para a Reforma Tecnológica do Estado. São essas quatro dimensões:
Cibersegurança: proteção de dados e sistemas contra ameaças, e capacidade de resposta a incidentes.
Privacidade: gestão ética e legal da informação de clientes e colaboradores, alinhada com o RGPD.
Sustentabilidade: escolhas tecnológicas e uso de canais digitais que respeitam o ambiente, do consumo energético ao ciclo de vida do equipamento.
Acessibilidade: capacidade de qualquer pessoa, incluindo pessoas com deficiência, aceder e usar os serviços digitais da organização sem barreiras.
Há dois caminhos, e não são mutuamente exclusivos.
Autoavaliação. O portal Portugal Digital disponibiliza um Diagnóstico de Maturidade Digital gratuito, pensado para dar a qualquer empresa uma primeira leitura de onde está, sem custos nem compromisso. É o ponto de partida natural antes de decidir investir tempo ou dinheiro num processo mais formal.
Certificação oficial. Para quem quer um selo reconhecido, e não apenas uma autoperceção, os Selos de Maturidade Digital atribuem classificações em três níveis, bronze, prata e ouro, em cada uma das quatro dimensões, e uma empresa que obtenha pelo menos o nível bronze nas quatro recebe ainda um Selo Global de Maturidade Digital. A candidatura faz-se junto de uma entidade certificadora acreditada, com registo na plataforma da INCM, e cada dimensão certificada dá acesso a um incentivo financeiro, suportado pelo PRR. A meta do programa é certificar 15 mil entidades portuguesas ao longo da vigência do plano, reforçando a competitividade e preparando os negócios para os requisitos digitais que se avizinham, sejam eles regulatórios, de mercado ou de acesso a financiamento.
Vale a pena notar que nem todas as dimensões avançam ao mesmo ritmo, o programa tem vindo a ser lançado de forma faseada, pelo que convém confirmar diretamente no portal da INCM quais os selos disponíveis para candidatura no momento em que a sua empresa decidir avançar.
Um Selo de Maturidade Digital é útil como validação externa, e pode até pesar em concursos públicos, parcerias ou acesso a certos apoios. Mas mede sobretudo conformidade em quatro áreas específicas, não mede se os processos do dia a dia da empresa estão realmente bem desenhados.
É perfeitamente possível ter um bom nível de cibersegurança e de privacidade e, ainda assim, continuar a fechar o mês a cruzar dados de faturação com dados de stock à mão, ou a depender de uma única pessoa que "percebe do ficheiro". A certificação formal e a maturidade operacional real andam relacionadas, mas não são a mesma coisa. Uma empresa pode ter selo e continuar presa a processos frágeis, e pode ter processos muito maduros sem nunca ter pedido um selo.
Maturidade digital não é um destino nem um troféu, é uma escala em movimento, e vale a pena situar-se nela com regularidade. O diagnóstico gratuito dá uma primeira leitura em minutos. Os Selos de Maturidade Digital dão um reconhecimento formal, útil sobretudo perante clientes, parceiros e concursos públicos. Mas nenhum dos dois substitui o trabalho de olhar para os processos do dia a dia e perceber onde é que a tecnologia ainda não está, de facto, ao serviço do negócio.


